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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

As figuras de linguagem

As figuras de linguagem



O uso da linguagem, seja para atividades escolares, no trabalho ou na simples rotina do cotidiano apresenta inúmeros recursos estilísticos que direcionam para um sentido ou uma intencionalidade. 


Nada é dito ao acaso. Através das palavras é possível expressar, opiniões, sentimentos e emoções.

Primeiramente, cabe a diferenciação entre os sentidos denotativo e conotativo, já que eles apresentam características bastante distintas.




O sentido denotativo 

O sentido denotativo apresenta a palavra em seu sentido real, literal, assim como é descrita no dicionário. 

Exemplo: 

A Terra gira ao redor do Sol. (Sol apresentado aqui como o astro luminoso.)


O sentido conotativo 

O sentido conotativo apresenta um sentido figurado, ou seja, atribuído por quem elaborou o enunciado.

Exemplo: 

Você é o meu sol! (Sol apresentado aqui como um elogio, algo de extrema importância.)

O uso do sentido conotativo evidencia a intenção do falante em dizer algo fora do seu sentido original, expressando assim, a sua criatividade. Esse amplo conjunto de recursos expressivos recebe o nome de figuras de linguagem.

As figuras de linguagem são:

Comparação:

Estabelece uma semelhança, criando assim, uma comparação. Em geral, apresentam as palavras ou expressões comparativas: como, igual a, que nem, semelhante a.

Exemplos: 

Os homens não melhoraram,
e matam-se como precevejos.

(Carlos Drummond de Andrade)


Minha filha é igual a mim, determinada e vitoriosa.


Metáfora:

Apresenta pontos em comum entre características de substantivos distintos. É amplamente utilizada na linguagem poética.

Exemplos: 

O caminho era uma serpente entre as lindas colinas. (Enfatizando a sinuosidade do caminho).

Meu pensamento é um grande rio.

Metonímia ou sinédoque:

É usada quando as palavras ou expressões apresentam um ponto de contato ou de proximidade.

Exemplos: 

O estádio vibrou com o gol. (Estádio foi usado em substituição à torcida).

Marcela sempre lê Machado de Assis. (em referência aos livros do escritor)

Personificação ou prosopopéia:

Atribui características humanas a seres inanimados.

Exemplos: A cidade foi completamente destruída pela nevasca cruel. (A crueldade é uma característica humana, usada aqui para enfatizar a devastação provocada pela nevasca.)

As flores admiravam o casal de namorados. (admirar é uma característica humana).

Antítese  paradoxo:

Apresenta pares de sentidos opostos: pobreza x riqueza, certeza x incerteza, bondade x maldade.

Paradoxo

Apresenta uma oposição de ideias.

Exemplos: 

"Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado."

(Carlos Drummond de Andrade)

Todo aspecto negativo tem um lado positivo.

Hipérbole:

É o exagero, utilizado não só na poesia, mas também no nosso cotidiano.

Exemplos: 

Eu morri de rir com a peça teatral. 

Estou morrendo de sono!

Eufemismo:

É a escolha cuidadosa de palavras de forma a amenizar situações desagradáveis , dolorosas ou constrangedoras.

Exemplos: 

Ele agora repousa lá no céu com o Senhor. (Referindo-se ao falecimento de um conhecido.)

Vovó entregou sua alma a Deus.

Ironia: 

É o recurso que, embora anuncie algo, apresenta sentido oposto, claramente entendido pelo leitor. Pode-se afirmar que é a figura de linguagem predominantemente usada nas piadas.

Exemplos: 

Moça linda, bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor!

(Carlos Drummond de Andrade)

Sua amiga é tão genial que errou tudo.

Elipse:

Consiste na omissão de uma palavra ou expressão sem que ocorra a perda de sentido da frase.
Exemplos: 

A criança que fui chora na estrada. (eu fui)

Joane gosta de carnes, Márcio, de saladas. (omissão do verbo gostar). 


Pleonasmo: 

É a repetição de uma ideia já contida no texto com o objetivo de intensificá-la.

Exemplos: 

É preciso, acima de tudo, viver a vida!

Saia para fora, cachorro!

Polissíndeto: 

É a repetição de uma conjunção na oração, atribuindo ao texto um sentido de continuidade.

Exemplos: 

Na casa não havia flores, nem árvores, nem pássaros.

Os convidados cantavam e dançavam e riam felizes. 

Onomatopeia:

É a reprodução ou imitação de um barulho.

Exemplos: 

Ouvia-se de longe aquele zum zum zum das pessoas.

O tic-tac do relógio incomodava as crianças.

Anáfora:

É a repetição de uma palavra ou trecho no início de uma frase.

Exemplos: 

Menina bonita,
menina educada, 
menina simpática,
meu amor!

Falta médico,
Falta medicamento,
Falta leito,
A saúde pública está um caos!

Aliteração:

É o recurso sonoro que consiste na repetição de uma determinada consoante ou de sons consonantais semelhantes.

Exemplos: 

O vento varria as folhas.
O vento varria os frutos.
O vento varria as flores.

(Manuel Bandeira)

O rato roeu a roupa do rei de Roma.


Assonância:

É o recurso sonoro que consiste na repetição de uma determinada vogal. Exemplos:

"A bela bola
rola:
a bela bola de Raul”.

(Cecília Meireles)


Minha mãe amassa a massa.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Questões sobre figuras de linguagem



Questões sobre as Figuras de Linguagem 

1) ANHEMBI

“A novidade veio dar à praia
na qualidade rara de sereia
metade um busto de uma deusa maia
metade um grande rabo de baleia
a novidade era o máximo
do paradoxo estendido na areia
alguns a desejar seus beijos de deusa
outros a desejar seu rabo pra ceia
oh, mundo tão desigual
tudo tão desigual
de um lado este carnaval
do outro a fome total
e a novidade que seria um sonho
milagre risonho da sereia
virava um pesadelo tão medonho
ali naquela praia, ali na areia
a novidade era a guerra
entre o feliz poeta e o esfomeado
estraçalhando uma sereia bonita
despedaçando o sonho pra cada lado”

(Gilberto Gil – A Novidade)

Assinale a alternativa que ilustra a figura de linguagem destacada no texto:

a) “A novidade veio dar à praia/na qualidade rara de sereia”
b) “A novidade que seria um sonho/o milagre risonho da sereia/virava um pesadelo tão medonho”
c) “A novidade era a guerra/entre o feliz poeta e o esfomeado”
d) “Metade o busto de uma deusa maia/metade um grande rabo de baleia”
e) “A novidade era o máximo/do paradoxo estendido na areia”





2. U. Taubaté

No sintagma: “Uma palavra branca e fria”, encontramos a figura denominada:

a) sinestesia
b) eufemismo
c) onomatopéia
d) antonomásia
e) catacrese


3. FAU-Santos

Nos versos: “Bomba atômica que aterra

Pomba atônita da paz
Pomba tonta, bomba atômica...”
Em frágil prancha sobre o mar de horrores,
Porque meu seio se tornou pedra,
Porque minh’alma descorou de dores.” (Fagundes Varela)
- Dois do presente,
- Dois do passado.”

A repetição de determinados elemento fônicos é um recurso estilístico denominado:

a) hiperbibasmo
b) sinédoque
c) metonímia
d) aliteração
e) metáfora


4. Maringá

Leia os versos e depois assinale a alternativa correta:

“Amo do nauta o doloroso grito
No primeiro verso, há uma figura que se traduz por:
a) pleonasmo
b) hipérbato
c) gradação
d) anacoluto
e) anáfora


5. Mack

Nos versos abaixo, uma figura se ergue graças co conflito de duas visões antagônicas:

“Saio do hotel com quatro olhos,
Esta figura de linguagem recebe o nome de:
a) metonímia
b) catacrese
c) hipérbole
d) antítese
e) hipérbato


6. UFPB
I. "À custa de muitos trabalhos, de muitas fadigas, e sobretudo de muita paciência..."

II. "... se se queria que estivesse sério, desatava a rir..."

III. "... parece que uma mola oculta o impelia..."

IV. "... e isto (...) dava em resultado a mais refinada má-criação que se pode imaginar."

Quanto às figuras de linguagem, há neles, respectivamente,

a) gradação, antítese, comparação e hipérbole
b) hipérbole, paradoxo, metáfora e gradação
c) hipérbole, antítese, comparação e paradoxo
d) gradação, antítese, metáfora e hipérbole
e) gradação, paradoxo, comparação e hipérbole



7. UFF

Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra.
Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição
A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas.
Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

(ASSIS, Machado fr. Quincas Borba. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira/INL, 1976.)

Assinale dentre as alternativas abaixo, aquela em que o uso da vírgula marca a supressão (elipse) do verbo:

a) Ao vencido, ódio ou compaixão, ao vencedor, as batatas.


b) A paz, nesse caso, é a destruição (…)
 


c) Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas.
 


d) (…) mas, rigorosamente, não há morte (…)
 


e) Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se (…)




8. UFPA

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(MELO, João Cabral de. In: Poesias Completas. Rio de Janeiro, José Olympio, 1979)

Nos versos
“E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo…”
tem-se exemplo de
a) eufemismo
b) antítese

c) aliteração

d) silepse

e) sinestesia



9. FUVEST

A catacrese, figura que se observa na frase “Montou o cavalo no burro bravo”, ocorre em:

a) Os tempos mudaram, no devagar depressa do tempo.

b) Última flor do Lácio, inculta e bela, és a um tempo esplendor e sepultura.
c) Apressadamente, todos embarcaram no trem.
d) Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.

e) Amanheceu, a luz tem cheiro.



10.  USF-SP

Leia estes versos:
“As ondas amarguradas
Encostam a cabeça nas pedras do cais.
Até as ondas possuem
Uma pedra para descansar a cabeça.
Eu na verdade possuo
Todas as pedras que há no mundo,
Mas não descanso”.
(Murilo Mendes)

A figura de linguagem que ocorre nos versos 5 e 6 é:
a) metáfora

b) sinédoque
c) hipérbole

d) aliteração
e) anáfora



Gabarito:

1 - B

2 - A

3 - D

4 - C

5 - D

6 - D

7 - A

8 - C

9 - C

10 - C




quinta-feira, 25 de julho de 2019

Os níveis de linguagem


Os níveis de linguagem

A língua apresenta diferentes níveis de linguagem, ou seja, diferentes registros utilizados pelos falantes. 



Esses níveis podem variar dependendo do contexto comunicativo, do nível de escolarização e da interação entre os diversos interlocutores. 

Linguagem formal ou culta 

É aquela que segue os conceitos estabelecidos pela gramática normativa e é a adotada como padrão nos vestibulares e concursos. Além disso, é utilizada nos trabalhos escolares e acadêmicos. 

A linguagem formal ou culta apresenta uma estrutura sintática complexa, em que as palavras são cuidadosamente escolhidas para que o texto fique bem elaborado. 

Por privilegiar a correção gramatical, é ensinada nas escolas e amplamente falada na comunicação social mais formal. 

Outra característica importante é que ela apresenta um vocabulário mais rico e diversificado, característico da formalidade que a escrita exige. 

É importante lembrar também, que a linguagem formal quando utilizada na fala, exige uma pronúncia mais clara e correta das palavras. 

Situações de uso da linguagem formal 

Salas de aula, conferências, palestras e seminários; 

Discursos públicos ou políticos; 

Exames e avaliações escritas ou orais de concursos públicos; 

Reuniões de trabalho; 

Entrevistas de emprego; 

Editais; 

Documentos oficiais, requerimentos e cartas. 


A linguagem formal é usada, principalmente com superiores hierárquicos e figuras de autoridade como as oficiais, as religiosas e as políticas. Além disso, é direcionada também ao público desconhecido e amplo. 

Exemplos: 

Prezados Senhores, 
Em busca de nova proposta de trabalho na área de vendas, apresento-lhes meu currículo anexo. 
Entre minhas características básicas encontram-se: adaptabilidade, bom humor, dinamismo, responsabilidades, perfeccionismo, dedicação ao trabalho e bom relacionamento interpessoal. Informo que tenho disponibilidade para viagens, de acordo com a necessidade da empresa. 
No aguardo de contato, coloco-me à disposição para prestar-lhes mais esclarecimentos. 


Prezada Senhora, 
Peço sua atenção para a presente questão que poderá afetar negativamente o nosso projeto. 


A festa de confraternização dos funcionários e seus familiares será realizada na sede campestre de nossa empresa, localizada na cidade de Itatiaia. 


É com imensa satisfação que informamos que o resultado do balanço de vendas superou todas as expectativas inicias estabelecidas pela gerência da nossa empresa. 


Aviso aos moradores do Bloco 12 
Será realizada no próximo sábado, dia 12 de setembro, a manutenção da rede elétrica do condomínio, fato que acarretará no desligamento da energia. 

Pedimos desculpas pelo transtorno causado e contamos com a colaboração de todos. 


O concurso público a que se refere o presente Edital será realizado pelo Instituto de Pesquisas, Pós-Graduação e Ensino da cidade do Rio de Janeiro. 


Sou executivo de Assuntos Corporativos e Comunicação Empresarial com carreira em escritórios de advocacia, onde adquiri sólida experiência em relações com a imprensa, clientes corporativos , gestão de produtos, suporte a desenvolvimento de agências e postos de serviços, análise de concorrência, formação e liderança de equipes, interface entre banco e empresas seguradoras e de cartões de crédito e áreas administrativas. Graduado em Economia e Ciências Jurídicas e Sociais, tenho pós-graduação em Comunicação Social. 


Venho solicitar a clarividente atenção de Vossa Excelência para que seja conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil. Refiro-me, senhor presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de moças, atraindo-as para se transformarem em jogadoras de futebol, sem se levar em conta que a mulher não poderá praticar este esporte violento sem afetar, seriamente, o equilíbrio fisiológico de suas funções orgânicas, devido à natureza que dispôs a ser mãe. Ao que dizem os jornais, no Rio de Janeiro, já estão formados nada menos de dez quadros femininos. Em São Paulo e Belo Horizonte também já estão se constituindo outros. E, neste crescendo, dentro de um ano, é provável que em todo o Brasil estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol: ou seja: 200 núcleos destroçados da saúde de 2,2 mil futuras mães, que, além do mais, ficarão presas a uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes. 
Carta Capital 


Prezados alunos e responsáveis do Colégio Saber, 
Informamos que a palestra a respeito da Preservação Ambiental em Nossa Cidade será ministrada pela Dra. Rose Albuquerque, renomada especialista na área. 
Contamos com a presença de todos no dia 22 de outubro, às 19h no auditório de nossa escola. 
Atenciosamente, 
Equipe gestora 


Senhor Fornecedor, 
Pedimos urgência no processo de atualização dos dados cadastrais pendentes para que possamos cumprir o prazo para a emissão das ordens de pagamento dos serviços prestados pela vossa empresa. 


Linguagem Informal ou Coloquial 

A linguagem coloquial é dotada de maior liberdade de expressão, característica típica da oralidade. 

Por não seguir os padrões rígidos estabelecidos pela gramática normativa, apresenta uma estrutura sintática mais simples e, consequentemente, mais acessível às pessoas com menor grau de escolarização. 

A linguagem coloquial é utilizada em situações informais, por este motivo, não há muito cuidado na escolha das palavras. 

É preciso estar atento ao contexto comunicativo, já que a linguagem informal não é aceita em situações como entrevistas de emprego ou apresentação de trabalhos escolares, por exemplo. Ela também deve ser evitada quando a mensagem é dirigida a um grande público. 

É importante observar que as pessoas adotam diferentes tipos de fala, dependendo do contexto em que se encontram: um diretor de uma empresa, por exemplo, apresenta em seu local de trabalho, o nível de linguagem formal que o ambiente e o seu cargo exigem. No entanto, em casa com sua família e amigos, adota uma linguagem mais informal, em função, inclusive, do grau de intimidade que possui com estas pessoas. 

A linguagem informal ou coloquial proporciona maior liberdade de expressão, permitindo, até mesmo, o uso de gírias e expressões populares. 

Exemplos: 

Fala aí, galera! Vai rolar o churras no domingo? 

A mandioca-mansa e a mandioca-brava 
(...) Melhor, se arrepare: pois num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. (...) Arre, ele (o demo) está misturado em tudo. 
(ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 1994). 


Vício na fala
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados 
                                            Oswald de Andrade 


É só a gente passá
um fío de linha no meio,
pra móde infiá as contínhas,
cúm geito, pra não errá… 

Quando o fío tivé bem cheio,
cô’as cônta tudo juntínha,
tambem tá prontínho e feito
bonitinho e por iguá,
um rosarinho prefêito
de conta de capiá…” (p.01) 
                                                Monteiro Lobato 


Até quando? 
Não adianta olhar pro céu 
Com muita fé e pouca luta 
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer 
E muita greve, você pode, você deve, pode crer 
Não adianta olhar pro chão 
Virar a cara pra não ver 
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus 
Sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer! 
                                                                 Gabriel o Pensador 


Aos 18 anos, pai Norato deu uma facada num rapaz, num adjutório, e abriu o pé no mundo. Nunca mais ninguém botou os olhos em riba dele, afora o afilhado.
— Padrinho, eu vim cá chamá o sinhô pra mode i morá mais eu.
— Quá, flo, esse caco de gente num sai daqui mais não.
— Bamo. Buli gente num bole, mais bicho… O sinhô anda perrengado…”
(Bernardo Élis, Pai Norato) 


Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou. 
                                                     Adélia Prado 


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro 
                                 Oswald de Andrade 


Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido: – Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! [...] O capitão tomou seu terceiro copo de cachaça. Juvenal, que o observava com olhos parados e inexpressivos, puxou dum pedaço de fumo em rama e duma pequena faca e ficou a fazer um cigarro. – Pois le garanto que estou gostando deste lugar – disse Rodrigo. – Quando entrei em Santa Fé, pensei cá comigo: Capitão, pode ser que vosmecê só passe aqui uma noite, mas também pode ser que passe o resto da vida...' 
                            (O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo)


Tu não sabe quem eu encontrei ontem no metrô: A Gisele do oitavo ano! 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

ENEM - Questões sobre o Realismo

 


1. ENEM 2010

Capítulo III

Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que esta aqui na sala: um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja - primor de argentaria, execução fina e acabada. O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província, nem pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços.

 

(ASSIS, M. Quincas Borba. In: Obra completa. V.1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993)

 

Quincas Borba situa-se entre as obras-primas do autor e da literatura brasileira. No fragmento apresentado, a peculiaridade do texto que garante a universalização de sua abordagem reside:

a) no conflito entre o passado pobre e o presente rico, que simboliza o triunfo da aparência sobre a essência.

b) no sentimento de nostalgia do passado devido à substituição da mão de obra escrava pela dos imigrantes.

c) na referencia a Fausto e Mefistófeles, que representam o desejo de eternização de Rubião.

d) na admiração dos metais por parte de Rubião, que metaforicamente representam a durabilidade dos bens produzidos pelo trabalho.

e) na resistência de Rubião aos criados estrangeiros, que reproduz o sentimento de xenofobia.

 

2. ENEM 2011

O nascimento da crônica

Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue; está começada a crônica.

Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas. No paraíso é provável, é certo que o calor era mediano, e não é prova do contrário o fato de Adão andar nu. Adão andava nu por duas razões, uma capital e outra provincial. A primeira é que não havia alfaiates, não havia sequer casimiras; a segunda é que, ainda havendo-os, Adão andava baldo ao naipe. Digo que esta razão é provincial, porque as nossas províncias estão nas circunstâncias do primeiro homem.

 

(ASSIS, M. In: SANTOS, J .F. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007)

 

Um dos traços fundamentais da vasta obra literária de Machado de Assis reside na preocupação com a expressão e com a técnica de composição. Em O nascimento da crônica, Machado permite ao leitor entrever um escritor ciente das características da crônica, como:

a) texto breve, diálogo com o leitor e registro pessoal de fatos do cotidiano.

b) texto ficcional curto, linguagem subjetiva e criação de tensões.

c) priorização da informação, linguagem impessoal e resumo de um fato.

d) linguagem literária, narrativa curta e conflitos internos.

e) síntese de um assunto, linguagem denotativa, exposição sucinta.

 

3. ENEM 2014

O Jornal do Commércio deu um brado esta semana contra as casas que vendem drogas para curar a gente, acusando-as de as vender para outros fins menos humanos. Citou os envenenamentos que tem havido na cidade, mas esqueceu de dizer, ou não acentuou bem, que são produzidos por engano das pessoas que mani-pulam os remédios. Um pouco mais de cuidado, um pouco menos de distração ou de ignorância, evitarão males futuros. Mas todo ofício tem uma aprendizagem, e não há benefício humano que não custe mais ou menos duras agonias. Cães, coelhos e outros animais são vítimas de estudos que lhes não aproveitam, e sim aos homens; por que não serão alguns destes, vítimas do que há de aproveitar aos contemporâneos e vindouros? Há um argumento que desfaz em parte todos esses ataques às boticas; é que o homem é em si mesmo um laboratório. Que fundamento jurídico haverá para impedir que eu manipule e venda duas drogas perigosas? Se elas matarem, o prejudicado que exija de mim a indenização que entender; se não matarem, nem curarem, é um acidente e um bom acidente, porque a vida fica.

 

(ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1967)

 

No gênero crônica, Machado de Assis legou inestimável contribuição para o conhecimento do contexto social de seu tempo e seus hábitos culturais. O fragmento destacado comprova que o escritor avalia o(a):

 

a) manipulação inconsequente dos remédios pela população.

b) uso de animais em testes com remédios desconhecidos.

c) fato de as drogas manipuladas não terem eficácia garantida.

d) hábito coletivo de experimentar drogas com objetivos terapêuticos.

e) ausência de normas jurídicas para regulamentar a venda nas boticas.

 

4. ENEM 2017

Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa.

Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero […].

Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

 

(ASSIS, M. A causa secreta. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br Acesso em: 9 Out. 2015)

 

No fragmento, o narrador adota um ponto de vista que acompanha a perspectiva de Fortunato. O que singulariza esse procedimento narrativo é o registro do(a)

 

a) indignação face à suspeita do adultério da esposa.

b) tristeza compartilhada pela perda da mulher amada.

c) espanto diante da demonstração de afeto de Garcia.

d) prazer da personagem em relação ao sofrimento alheio.

e) superação do ciúme pela comoção decorrente da morte.

 

5. ENEM 2019

Inverno! inverno! inverno!

Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva

boreal, descampados de gelo cujo limite escapa-nos

sempre, desesperadamente, para lá do horizonte,

perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve a voz

do vento que passa uivando como uma legião de lobos,

através da cidade de catedrais e túmulos de cristal na

planície, fantasmas que a miragem povoam e animam,

tudo isto: decepções, obscuridade, solidão, desespero

e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o

frio inverno da vida.

Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma

dos lugares onde a natureza dorme por meses, à espera

do sol avaro que não vem.

 

POMPEIA, R. Canções sem metro. Campinas: Unicamp, 2013.

 

Reconhecido pela linguagem impressionista, Raul Pompeia desenvolveu-a na prosa poética, em que se observa a

a) imprecisão no sentido dos vocábulos.

b) dramaticidade como elemento expressivo.

c) subjetividade em oposição à verossimilhança.

d) valorização da imagem com efeito persuasivo.

e) plasticidade verbal vinculada à cadência melódica.

 

 

Gabarito:

1. A

2. A

3. A

4. D

5. E